Anotações de Caderno Velho: Domingo
O presente texto foi encontrado no meio de um caderno esquecido. Foi escrito em 29/10/2006, precisamente às 20:11.
Quando acordou parecia até não saber que era Domingo. No pé do cachimbo. A cabeça pesada de uma noite mal dormida. Pisou o chão frio e a réstia de sono foi embora com o arrepio. Um pouco mais cedo e acordava antes do sol.
Olhou pela janela e não viu nada de anormal. Os mesmos bêbados abraçados aos mesmos postes. Os mesmos velhinhos caminhando com suas camisas de malha brancas e suas toalhas mais alvas que seus cabelos.
Nem olhou para o relógio. Era capaz de adivinhar, então não começaria o dia perdendo tempo.
Olhou para o caderno, que dormiu jogado ao chão, com o lápis marcando a última página escrita, e lembrou da história que escreveu na noite anterior. Mais um pedaço de um par de linhas que já não parecia ter fim. Ainda lembrando, soltou o primeiro sorriso do dia. Era bela essa parte da história. Marcava uma reviravolta na vida de seu protagonista.
Gostava ele de conseguir escrever bons momentos para o herói que criou. Se via de alguma forma ele também vivendo suas reviravoltas ainda que não tão grandiosas, como que seguindo os passos de alguém que sequer existe senão em folhas pautadas, como seguem os garotos os passos dos heróis da história de um povo.
Decidiu então que ia a partir daquele momento escrever mais capítulos grandiosos, para seu caderno e sua própria vida.
Abriu a porta do quarto e desceu as escadas para ver o sol que já brilhava forte.
Porque era Domingo.


