Archive for February, 2010

Anotações de Caderno Velho: Domingo

O presente texto foi encontrado no meio de um caderno esquecido. Foi escrito em 29/10/2006, precisamente às 20:11.

Quando acordou parecia até não saber que era Domingo. No pé do cachimbo. A cabeça pesada de uma noite mal dormida. Pisou o chão frio e a réstia de sono foi embora com o arrepio. Um pouco mais cedo e acordava antes do sol.
Olhou pela janela e não viu nada de anormal. Os mesmos bêbados abraçados aos mesmos postes. Os mesmos velhinhos caminhando com suas camisas de malha brancas e suas toalhas mais alvas que seus cabelos.

Nem olhou para o relógio. Era capaz de adivinhar, então não começaria o dia perdendo tempo.

Olhou para o caderno, que dormiu jogado ao chão, com o lápis marcando a última página escrita, e lembrou da história que escreveu na noite anterior. Mais um pedaço de um par de linhas que já não parecia ter fim. Ainda lembrando, soltou o primeiro sorriso do dia. Era bela essa parte da história. Marcava uma reviravolta na vida de seu protagonista.

Gostava ele de conseguir escrever bons momentos para o herói que criou. Se via de alguma forma ele também vivendo suas reviravoltas ainda que não tão grandiosas, como que seguindo os passos de alguém que sequer existe senão em folhas pautadas, como seguem os garotos os passos dos heróis da história de um povo.

Decidiu então que ia a partir daquele momento escrever mais capítulos grandiosos, para seu caderno e sua própria vida.

Abriu a porta do quarto e desceu as escadas para ver o sol que já brilhava forte.

Porque era Domingo.

Anotações de Caderno Velho: Soldados

O presente texto foi encontrado no meio de um caderno esquecido. Foi escrito em 08/10/2009, precisamente às 08:27.

Enfrentamos o inferno desde que o fogo é fogo, Numa batalha desigual.

Eles tentaram nos destruir por completo; E Num momento eu até quis acreditar Que o fim seria então até um alívio.

Mas sim, eu sei, não é bem assim. No fim, não sei quando, tudo se tranqüiliza

E enfim se poderia achar a paz…

E voltar tudo ao que era

Olhe então por estes soldados ó nobre e belo patriarca

Para que um dia possamos retornar Ao sonho em que sempre sonhei estar…

Então sonho com o que vale a pena sonhar.

E meu sonhos mais belos são feitos de pedaços de outros sonhos:

Céus Gregos, Torres Romanas, Um pôr do sol galego, E uma brisa doce do mar Tirreno.

E tudo o que perdi, Tudo o que ganhei, Poderia então fazer algum sentido.

Se de fato tudo enfim se acalmasse e pudesse pensar com toda clareza da bondade.

Salve minha alma ó nobre e belo patriarca, Para que um dia eu possa retornar Ao sonho em que sempre sonhei estar.

Eu rezo por ela, que reza por mim, Para que eu possa retornar vivo e são.

Para podermos terminar essa história; Seja qual for o fim que ela escolher…

E rezo também pelas crianças que ainda nem vi nascer… Pequenos pedaços da história por vir, Por enquanto ainda uma imaginação, Mas que já ganharam meu coração para sempre.

Salve então este mundo ó nobre e belo patriarca.

Para que um dia não seja preciso sonhar em retornar Ao sonho em que sempre se sonhou estar…

De quando não se vê o tempo passar…

Existem momentos em que os olhos abrem e fecham como cortinas do tempo. Não estou falando exatamente de um piscar de olhos, mas do momento em que “abrimos os olhos” e nos damos conta das coisas ao nosso redor.

Das Mudanças,

Do que nunca mudou,

Do que não queríamos aceitar,

da poesia que teima em ainda circundar esse mundo chato frio e vazio,

Das vírgulas que teimam em nunca terminar a frase…

E como a frase nunca termina, o tempo meio que para. Ou teria ele nunca andado já a muito… tempo?

Tempo tempo mano velho falta um tanto ainda eu sei. Pra você correr macio…

E fica uma impressão diferente, como se tivesse os olhos fechados a algum tempo, e só reaberto agora. Não vi correrem as horas, os dias, anos… E de repente tudo era como antes. A escrita fluia, a imaginação voltava a agitar, como nos velhos… (ah essa palavra de novo…) Tempos.

Foram esses, os últimos dias em que com os olhos abertos por demais, pensei, escrevi e disse o que deveria ter pensado, escrito e dito muito antes. Quando talvez tivesse algum sentido ter feito tudo isso…

Mas ele, (sim ele) o tempo, passou. E eu estava de olhos fechados.

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